Laboratório vivo irá testar o modo como as florestas respondem ao clima de amanhã
Está a ser implementada nas Serras do Porto uma Floresta Sentinela, destinada a antecipar a resposta destes ecossistemas às alterações climáticas, numa pequena parcela experimental situada na serra de Santa Justa, em Valongo. A iniciativa integra o projeto LIFE “Adapting Serras do Porto to Climate Change”, coordenado pela Associação de Municípios Parque das Serras do Porto, com o envolvimento do Município de Valongo, do CRE.Porto e de outras entidades.
Destaca-se a plantação de 12 carvalhos-de-monchique (Quercus canariensis), uma espécie rara que ocorre numa zona restrita do sul de Portugal e cuja seleção recorreu à genómica de alta resolução, isto é, à sequenciação de genomas completos. Trata-se do primeiro trabalho científico deste género aplicado à conservação de plantas em Portugal. Estão a ser instalados núcleos destas árvores em cerca de trinta locais da Península Ibérica e além dela, os quais irão funcionar como sensores vivos das alterações climáticas a longo prazo, através da avaliação do seu crescimento, das suas características funcionais e do seu desempenho ecológico. Importa referir que as projeções climáticas indicam que, até 2100, o norte de Portugal poderá apresentar condições mais favoráveis do que o sul para as florestas de carvalhos‑de‑monchique, com um ambiente menos frio, mais húmido e com maior estabilidade climática.
Este projeto específico é apoiado pelo PRR, em colaboração com a Navigator e o RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e do Papel, inserindo-se num âmbito mais alargado de experimentação e adaptação florestal.
Paralelamente, estão também a ser plantados sobreiros, medronheiros, loureiros, azevinhos e adernos, entre outras espécies, recriando uma floresta inspirada nas associações vegetais subtropicais que existiram outrora no território ibérico: as chamadas Florestas Sentinela. Esta é uma iniciativa voluntária do grupo de investigação BEPE – BIOPOLIS, apresentada como proposta de trabalho e narrativa científica aplicada. Desenvolve‑se em parceria com entidades públicas e privadas, incluindo comunidades intermunicipais, municípios, áreas protegidas, arboretos e jardins botânicos, que colaboram na implementação local das parcelas experimentais.
Mais do que uma ação de plantação, trata-se de uma plataforma de experimentação ecológica para testar agrupamentos vegetais, à luz das características biogeográficas locais e de cenários preditivos de alterações climáticas, num contexto de mudança global. A iniciativa visa igualmente valorizar o património florestal português, apoiando a conservação de florestas e espécies ameaçadas, cuja área de ocorrência poderá perder adequabilidade climática nas próximas décadas. Ao testar novos enquadramentos ecológicos em condições controladas, as Florestas Sentinela procuram antecipar riscos de desaparecimento desses valores naturais e apoiar estratégias de conservação ativa face à mudança climática.


